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FREDERICO GARCIA LORCA – ANTOLOGIA POÉTICA – Selección, presentación y notas: Andrew A. Anderson – Editado por Disputación de Granada

Quando viajo, além de comer e beber os produtos locais, procuro ler algum autor local… assim li Jorge Luis Borges e Leopoldo Marechal na Argentina, Felisberto Hernandez no Uruguai, Fernando Pessoa e Almada Negreiros em Portugal, Bolaño e Neruda no Chile, Dyonelio Machado no Rio Grande do Sul, etc…

Assim sendo, em minha recente viagem ao sul da Espanha, procurei ler um autor andaluz, no caso Frederico Garcia Lorca… No caso, conhecia muito pouco: um poema dele citado em “Trilogía de la Guerra” de Agustin Fernández Mallo (*), o Garcia Lorca como personagem do livro “Los Ingrávidos” de Valeria Luiselli (**) e as diversas homenagens prestadas a ele pelos poetas daqui, como Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes, etc…

Havia comprado esta antologia há dez anos, quando estive em Granada, e só li agora… não sabia o que estava perdendo… ela é muito bem organizada, mostrando os diversos aspectos da multifacetada poesia de Garcia Lorca: desde criações da juventude aos poemas del cante jondo (dedicados ao flamenco), do cancionero gitano aos poemas de Nova York (onde Lorca estudou na Universidade de Columbia), de sonetos até poemas em prosa e até mesmo poemas no dialeto galego.

Na poesia de Frederico Garcia Lorca, tal variedade de significantes (formas de poesia) dá expressão a uma outra variedade de significados (temas): do mar à terra seca, de estórias bíblicas a unicórnios e cíclopes, do entardecer em Nova York à noite na Andaluzia, do lamento de um pé de laranja seco às meditações e alegorias da água, da criança qua acaba de nascer ao noturno do adolescente morto, de poemas festivos às poesias de caráter social, como “Degollación de Los Inocentes” (que além de profetizar de certa forma seu assassinato pelas forças de Franco, permanence tremendamente atual, vide os genocídios dos palestinos em Gaza ou da população negra nas periferias de Pindorama).

Na verdade esta antolgia é só a ponta de um iceberg, pois como define seu organizador, Andrew A. Anderson: “ a obra lorquiana é como uma flor maravilhosa que não para de se abrir e que nunca fica murcha, e o leitor apaixonado é como um explorador deslumbrado que não acabará nunca de descobrir terras incógnitas com raras e novas belezas e verdades insuspeitadas.”

Aqui vão duas pequenas citações, a primeira é um fragmento de um poema juvenil, onde as rimas internas llanto/santo e melancolía/preludia/melodía/Andalucía cria um ritmo musical preludiado por uma orquestra muda:

 “Gran misticismo de luz y llanto.

Silencio santo. Melancolía.

La muda orquesta de la penumbra

preludia grave su melodía. 

Luna en los pueblos de Andalucía.”

O segunda citação são somente dois versos de um poema nova-iorquino, onde Lorca sintetiza todo um tratado de filosofia shopenhaueriana:

“No preguntarme nada. He visto que las cosas

cuando buscan su curso encuentran su vacio.”

(*) O La Aurora

(**) Aqui “Los Ingrávidos” (Os que não tem peso) foi publicado como “Rostos na Multidão” pela Editora Alfaguara – tradução de Maria Alzira Brum Lemos.

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FAT CITY – Leonard Gardner – Tradução para o espanhol: Juan Nadalini – Chai Editora

Fat City (*) de John Huston é um dos meus filmes prediletos, tanto que em 1990 eu pintei um quadro em homenagem a esta obra. Porém nunca havia encontrado o livro que dera origem a famosa película… realmente as editoras de Pindorama deixam muito a desejar quanto a lançamentos de títulos extrangeiros, mas recentemente, observando uma livraria portenha, descobri uma tradução espanhola deste livro.

Leonard Gardner, é mais um daqueles escritores de um só livro… nascido em Stockton (subúrbio de Los Angeles) em 1933, frequentou um ginásio de boxe na cidade, e aos dezenove anos foi tentar ser escritor na Cidade do México, rumando depois para São Francisco, onde escreveu Fat City, publicado em 1969. Originalmente o livro tinha cerca de 400, páginas, mas Gardner foi limando a obra até que ficasse com menos da metade de páginas da versao inicial… Quando Huston resolveu levar a estória para as telas, chamou Gardner para fazer a adaptação cinematográfica… O trabalho não deve ter sido difícil, pois os capítulos do livro são estruturados tal qual takes cinemátográficos, e como os diálogos são bem estuturados, foi só transpô-los para o filme, porém os finais são diferentes, embora não excludentes…

É um livro sobre boxe, sobre a Stockton dos anos 70, sobre o trabalho dos bóias frias e outros sub-empregados californianos, sobre redenção, sobre amor, sobre amizade, etc… poderia aqui elencar muitas virtudes, mas só o fato de ter sido por John Huston já diz tudo, uma vez que este grande cineasta só filmava literatura de qualidade: Herman Melville, James Joyce, Malcolm Lowry, Rudyard Kipling, Dashiel Hammett, Tennessee Willians, B. Traven, etc.

(*) No Brasil o filme foi batizado “Cidade das Ilusões”, passou no cimena e na TV, porém nunca foi lançado em VHS ou DVD.

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ADÁN BUENOSAYRES – Leopoldo Marechal – Ediciones Corregidor

Leopoldo Marechal é um dos autores mais injustiçados da literatura argentina… Colaborador de revistas literárias como Proa e Martin Fierro, era amigo de Jorge Luis Borges, Vitoria Ocampo e demais escritores… Porém sua adesão ao peronismo e a forma irônica com que expôs a intelectualidade portenha em seu romance de estréia editado em 1948, colocou-o em um ostracismo… na época, somente um jovem escritor elogiou o livro… um tal de Julio Cortázar…

Este livro nunca foi traduzido em português…. Uma falha gravíssima de nossas editoras (inclusive da Livraria Martins Editora, que pertenceu a meu avô, que lançou Antônio Cândido, Lygia Fagundes Telles e Jorge Mautner, mas não lançou Leopoldo Marechal em solo brasileiro)…

O livro começa com “O Prólogo Indispensável” onde um narrador denominado L.M. descreve o enterro do personagem Adán Buenosayres e informa que irá narrar seus derradeiros dias e também dois textos escritos por Adán: “O Caderno de Capas Azuis” e “A Viagem  a Obscura Cidade de Cacodelphia”       . Na verdade nesta parte inical já está prefigurado o final do livro, como bem observa Javier de Navascués no prólogo do livro, citando “East Coker” de T. S. Eliot: “In my beginning is in my end, in my end is my beginning.”

Depois do prólogo, temos sete livros, os cinco primeiros descrevem os últimos dias do escritor: o despertar do protagonista, sua conversa com seu vizinho de quarto de pensão, Samuel Tesler (baseado no escritor Jacobo Fijman), as andanças em Vila Crespo, onde avista a igreja do Cristo de mãos quebradas, sua incursão em uma tertúlia literária no bairro de Saavedra onde ele entrega sua obra literária “O Caderno de Capas Azuis” àquela a quem tanto ama, Solveig Amundsen… esta, recusa a leitura e lhe devolve a obra… a partir daí uma serie de acontecimentos se sucedem com o protagonista e seus amigos, todos baseados em pessoas reais: além da similaridade de Samuel Tesler/Jacobo Fijman, Jorge Luis Borges é Luis Pereda, Xul Solar é  Schultze, Raúl Scalabrini Ortiz é Bernini, Norah Lange é Solveig Amundsen, etc. Estes cinco livros são narrados em tom de epopéia com um paralelismo com a Odisséia, numa clara referência a Ulisses de James Joyce.

Já no sexto livro “O Caderno de Capas Azuis”, o tom muda, uma vez que não é uma obra escrita por Leopoldo Marechal, mas por seu personagem Adán Buenosayres… o estilo rebuscado lembra as obras do Século de Ouro da literatura espanhola, e em alguns momentos parece“O Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, embora seja muito improvável que Leopoldo Marechal tivesse contato com a obra do escritor português.

O último livro é uma descida a Cidade de Cacodelphia, uma região infernal, onde Adan guiado por Schultze é conduzido aos círculos infernais em uma clara referência à Divina Comédia de Dante Alighieri, e também no final a Metamorfose de Kafka…

Adán Buenosayres é uma livro em que uma série de lacunas e elipses deixam uma obra em aberto, sujeita a uma série de conjecturas, por exemplo: não fica claro se “O Caderno de Capas Azuis” foi escrito antes ou depois de “A Viagem a Obscura Cidade de Cacodelphia”, e tanto uma quanto outra hipótese alteram significativamente o sentido da obra… Tive a felicidade de adquirir este exemplar na Feira do Livro de Buenos Aires, mas quem encomendá-lo e se aveturar a lê-lo será recompensado com um tipo de obra que foge do cânone da literatura latino-americana reconhecida, e que avança por territórios desconhecidos dentro um sofisticado contexto filosófico composto por Pseudo-Dionísio Areopagita, Leão Hebreu (Judá Abravanel), Plotino, Santo Agostinho, São Boaventura, etc. Segue um pequeno exemplo: 

“A verdade é infinita – disse –. E me parece que há duas maneira de abordá-la: uma é do vidente que, ao reconhecer a importância de sua finitude ante ao infinito, pede para ser assimilado pelo infinito pela virtude do Outro e pela morte de si mesmo – meu Caderno de Capas Azuis! -; a outra é a do cego que trata de abarcar o infinito com sua própia finitude, a qual é matematicamente impossível.” (Leopoldo Marechal, a tradução é minha).

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SOBRE A AMIZADE E OUTROS DIÁLOGOS / SOBRE A FILOSOFIA E OUTROS DIÁLOGOS / SOBRE OS SONHOS E OUTROS DIÁLOGOS – Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari – Tradução: John O´Kuinghttons – Editora Hedra

Em 1984 Jorge Luis Borges participou de uma série de conversas sobre literatura com o poeta, ensaísta e jornalista Osvaldo Ferrari que foi transmitida pela Rádio Municipal de Buenos Aires. Após a morte de Borges estas conversas foram transcritas nesta série de livros com breves ensaios, cada qual com um tema do agrado do mestre argentino, muito bem conduzidas por Ferrari, que possuiatexto enorme afinidade com os assuntos abordados. Curioso que como Borges encontrava-se cego desde meados dos anos 50, trata-se de literatura oral, na qual o bruxo de Palermo citava frases de memória e discorria sobre a obra dos mais variados autores como Spinoza, Voltaire, Edgar Allan Poe, Mark Twain, Guiraldes, Kipling, Kafka, Dante, etc. , e também sobre temas como budismo, I Ching, a memória, a metáfora, a ética, a amizade, os sonhos, a filosofia, etc…

O mais interessante destes livros é o fato de que dentro de um tema, Borges relacionava o tema principal a outro tema, e este outro tema à um terceiro tema, tal qual elos de uma corrente, por exemplo: em um dos programas “Conrad, Melville e o mar”, ele começa com “Moby Dick”, depois passa para “Relato de Arthur Gordon Pym” de Edgar Allan Poe, daí vai para a etmologia das palavras black e blanco, segue comparando o último verso do Inferno, da Divina Comédia de Dante, com o final de “Moby Dick”, para depois discorrer sobre a semelhança das paisagens dos livros de Conrad com as do rio Paraná, explica porque prefere a palavra “bengala” em português a “bastón” em espanhol, e por fim se indaga por que o mar está  presente na literatura portuguesa, escandinava e francesa, mas ausente na literatura espanhola.

Quem está familiarizado com a obra de Borges e com a dos autores citados (ou pelo menos uma parte deles, como no meu caso) irá apreciar estes três livros… quem nunca leu Borges, sem problemas… comecem por “Aleph”, depois leiam “Ficções” e assim por diante… depois, se tiverem oportunidade leiam esta triologia… neste percurso vocês irão adquirir uma enorme bagagem intelectual e espiritual!!!

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CONTOS – Voltaire – Editora Nova Cultural – Tradutor: Roberto Domênico Proença

Em um de seus diálogos com Oswaldo Ferrari, Jorge Luis Borges diz que não conhecer Voltaire seria uma das formas de ignorância… Eu, que quanto mais leio, mais me sinto ignorante, admiti que posso se ignorante por não conhecer esta série de autores novos que surgem diariamente, mas permanecer na ignorância de um autor clássico que eu possuia um livro não lido na estate era demais…

Seu conto mais famoso, “Cândido ou O Otimismo” é uma fábula filosófica misturada com uma saga de aventuras, que abrange uma série de cenários como Vestfália, Holanda, Lisboa, Cádiz, Paraguai, Reino de Eldorado, Guiana Francesa, Paris, litoral da Inglaterra, Veneza, etc… Neste conto surge a personagem mais famosa criada pelo escritor françês: Pangloss, o preceptor que ensina metafísica, teologia e cosmogonia a Cândido afirmando que: “como tudo foi criado para uma finalidade, tudo está necessariamente destinado à melhor finalidade.”… o contraste entre a ingenuidade do protagosita alimentada pelos ensinamentos de Pangloss e o mundo cheio de maldades, falsidades e egoísmos que estes encontram pels suas andanças, enquanto Cândido procura sua cara metade Cunegundes, dá o tom a este conto e a seu magnífico desfecho.

Mas na minha modesta opinião o melhor conto do livro é “O Mundo como Está – Visão de Babuc escrita por ele mesmo”… nele Ituriel, um dos espíritos que dirigem os impérios do mundo surge para Babuc e explica que os gênios estão indignados com os excessos dos persas e pede a ele que se dirija para Persépolis e que faça um relato do que via para que os gênios decidam se a cidade deve ser castigada ou destruída… Não vou contar se no final Persépolis foi destruída, mas se destruíssem toda a obra de Voltaire e só restasse este conto, o último parágrafo o justificaria como um grande escritor.

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Feliz Blooms’day!!!

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O FATO E A COISA – Torquato Neto – Editora Fósforo

1982, dez anos após a morte de Torquato Neto, a editora Max Limonad publica a segunda edição de “Os Últimos Dias de Paupéria” uma coletânea com o poemas deste autor, acrescida dos artigos que ele havia publicado em sua coluna Geléia Geral no jornal Última Hora / Show comemorativo no anfiteatro da Faculdade de Filosofia e Letras da USP com a presença de Jards, Macalé, Jorge Mautner, Sexo dos Anjos, etc. / O então estudante Milton Carlos Silvério escreve a giz na parede da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (no estúdio 2 em frente a rampa), a crônica “Pessoal Intrasferível” que termina assim: “E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.”

Desde esta época quando ingressei  na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e acompanhei os fato retromencionados passei a me interessar na obra deste autor, adquirindo além da edicão da Max Limonad, os dois volumes Torquatália, “Geléia Geral” e “Do Lado de Dentro” da Editora Rocco (organizado por Paulo Roberto Pires), “Torquato Neto ou A Carne Seca é Servida” Editora Zodíaco (organizado por Kenard Kruel), além da biografia “Pra Mim Chega” escrita por Toninho Vaz – Editora Casa Amarela. Vi também os filmes super 8 em que Torquato Neto atuou (“Nosferato no Brasil” e “O Segredo da Múmia”) além de um super 8 dirigido por ele: “O Terror da Vermelha”…

Se você nunca leu nada do Torquato, procure ler algum dos livros acima e então depois, leia “O Fato e a Coisa”…  Neste livro podemos observar o processo de formação da poesia deste grande autor: poesia concreta e idéias pré-tropicalistas misturadas a uma poesia fortemente influenciada por Carlos Drummond de Andrade e em menos grau por Mário Faustino…

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PAULO LEMINSKY O BANDIDO QUE SABIA LATIM – Toninho Vaz – Editora Tordesilhas

Em meio as minhas leituras, sempre intercalo biografias… do Toninho Vaz já havia lido as biografias de Torquato Neto (Pra Mim Chega) e Luiz Melodia (Meu Nome é Ébano)… agora li esta do Paulo Leminsky. O curioso deste genial escritor biografado é que ele faz o caminhos inverso, ao invés de começar com uma linguagem simples e ir sofisticando, Leminsky fez o contrário: Catatau, seu livro inicial é de uma complexidade terrível, (semelhante a Finnegans Wake de James Joyce, Os Cantos de Erza Pound ou K de Velimir Khlébnokov)… ao longo de sua vida, ele simplifica a linguagem, caminhado para uma escrita singela e sintética , seja na poesia seja nas biografias (confesso que não li ainda seu romance “Agora é Que São Elas” mas numa folheada é possível perceber que é algo bem mais simples que Catatau). 

Para mim a autocrítica que Leminsky fez do Catatau (*) é um aula de literatura, já vale a biografia…  Quem acompanhou a imprensa nos anos oitenta sabe a importância que o biografado tinha… seria interessante se publicassem um livro com as crônicas que ele fez no jornal Folha de São Paulo, como a editora Companhia das Letras fez com sua poesia (Toda Poesia= e com as biografias que ele escreveu sobre Cruz e Sousa, Bashô, Jesus Cristo e Trótski (Vida). 

Porém não é uma biografia fácil de ler… nem tudo são flores nas vidas dos escritores…

(*) O Catatau procura gerar a informação absoluta, de frase para frase, de palavra para palavra: o inesperado é sua norma máxima. A sequência das frases de um texto coloca uma lógica. Mas nessa busca de informação absoluta, sempre novidade, novidade sempre, por uma reversão de expectiativa, ele produz a informação nula: a redundância. Se você sabe que só vem novidade, novidades vêm, e deixa de ser novidade. O Catatau é, ao mesmo tempo, o texto mais informativo e, por isso mesmo, o texto de maior redundância. 0=0. Tese de base da Teoria da Informação. A informação máxima coincide coma redundância máxima. O Catatau não diz isso. Ele é, exatamente, isso.

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DISCURSO DA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA – Étienne de La Boétie – Tradução: Casemiro Linarth – Editora Martin Claret

Foi graças a Michel de Montaigne que a obra de seu amigo Étienne de La Boétie chegou a posteridade, pois este, antes de morrer aos 32 anos em 1563, deixara com Montaigne todos os seus escritos, que nunca haviam publicados.

Curiosamente quando o filósofo francês resolveu publicar os textos de seu amigo, dezessete anos após a sua morte, deixou “O Discursso de Servidão Voluntária” de fora, pois o clima político estava muito pesado no reinado de Carlos IX e também porque os huguenotes (protestantes franceses) já tinham posto o texto para circular na clandestinidade, uma vez que havia sido publicado em 1576  na cidade de Genebra e também em 1577, em Middelburg (Holanda). 

Lendo o título, já nos deparamos com o paradoxo: como um conceito que remete a escravidão, pode ser associada a um conceito que remete a liberdade? Como a servidão, pode ser voluntária?

Étienne de La Boétie explica que só com a coni-convivência das pessoas que gozam os favores do tirano, é possivel a tirania se manter em pé, e prega a resistência sem violência através da desobediência civil. 

Existem dois textos curtos, complementares,  que se a maior parte da população pessoas tivesse lido, provavelmente o mundo seria menos opressivo: um é um livro de Herman Melville sobre um sujeito que diz “prefiro não fazer”, outro é “O Discursso de Servidão Voluntária”.

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REI LEAR – William Shakespeare – Editora 34 – Tradução: Rodrigo Lacerda

Glauber Rocha dizia que o teatro grego é a Memória da Grécia, o de Shakespeare a Memória do Mundo… Harold Bloom afirma que uma boa parte do que vemos hoje como a personalidade humana é uma invenção ou reinvenção shakespeariana (*)… embora já tendo lido alguns clássicos, li somente umas cinco peças de Shakespeare, e uma das minhas metas como leitor é ler aos poucos grande parte da obra do bardo inglês… para tal, resolvi agora ler Rei Lear.

Nesta tragédia, um velho rei decide repartir seu reino pelas três filhas e prepara uma cerimônia para que as três filhas o elogiassem na frente de toda a corte. A filha maior velha e a do meio fazem o discurso tradicional enaltecendo o pai, porém a caçula e preferida do rei, diz que nada tem a declarar pois o amor que ela tem ao pai já basta… O rei Lear fica furioso, a deserda e expulsa-a da Inglaterra… Decide repartir o reino entre as duas filhas e morar parte do tempo com uma, parte do tempo com outra, com sua pequena corte de cem pessoas…

Após uma série de desavenças, ele perde sua corte e é expulso pelas filhas em meio a uma tempestade, tendo só por compania o bobo da corte… Então se dá, uma das cenas mais contundentes da literatura (Cena 2 do Ato III) quando Lear ensandecido em meio a tempestade clama para que os ventos, raios, cataratas, furacões  e labaredas, destruam, inundem e queimem toda a humanidade…

Observando estas tempestades que estão a assolar nestes dias o litoral norte de São Paulo, a própia capital, bem como os desatres naturais que assolam nestes últimos tempos a maior parte do planeta, eu me pergunto:

Será que como o Rei Lear, o ser humano não largou o governo de si mesmo, deixando-o para as suas criações? Será que não estamos trabalhando mais e mais para produzir mais e mais objetos? Será que quando alguém se sacrifica muito para obter algum bem, ele fica dono deste bem? Ou o bem fica dono dele? Será que com a escrita artificial não estaremos abrindo mão de nossa capacidade cognitiva, uma vez que o pensamento é (ou deveria ser) estruturado pela escrita?

Será que o ser humano percebeu que abriu mão de sua capacidade de governar o mundo, transferindo-o aos objetos, e arrependido, inconscientemente clama para que a natureza destrua tudo?

Talvez esta interpretação seja um tanto quanto rasa.. Talvez o Chatgpt produza algo muito melhor… mas o importante não é isso… 

O importante é ler mais Shakespeare… pelo menos nosso raciocínio melhora e na hora da hetacombe estaremos lendo algo decente…

Ops! Já ia esquecendo… tenho também que elogiar esta edição bilígue muito bem traduzida e com um excelente posfácio do próprio Rodrigo Lacerda.

(*) Shakespeare: A Invenção do Humano – Harold Bloom – Tradução: José Roberto O´

Shea – Ainda não li este livro, confesso que ainda me falta bagagem, preciso ler mais peças do Shakespeare, preciso ler Geoffrey Chaucer também, para ver se Erza Pound tinha razão ao dizer que a obra deste era mais universal do que daquele, mas cada coisa no seu tempo…

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