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METAMORFOSES – Ovídio – Editora 34 – Tradução: Domingos Lucas Dias

Este livro, em quase doze mil versos,  descreve desde a origem do universo até a época em que foi escrito, 8 D.C., quando Roma era governada por Augusto, passando tanto por mais de duzentos e cinquenta mitos gregos, quanto por relatos como a Ilíada & Odisséia (Homero) ou pela Eneida (Virgílio).

Confesso que deveria ter lido este livro antes, e me arrependo de não tê-lo feito… meu conhecimento sobre a arte teria sido profundamente enriquecido: por exemplo, conhecendo o mito de Dânae (*), eu teria apreciado melhor  tanto o quadro de Ticiano exposto no Museu do Prado, quanto a obra com o mesmo tema pintada por Gustav Klimt. 

Mas não só os pintores beberam nesta fonte, escultores com Bernini (Apolo e Dafne), músicos como Wagner (a ópera Lohengrin foi inspirada no episódio de Sêmele), além de escritores com Shakespeare, Dante Alighieri, Goethe, James Joyce, Erza Pond e Kafka foram inspirados por Metamorfoses, aliás o último batizou sua melhor obra com o mesmo título deste livro de Ovídio, só que no singular.

Mas na minha opinião, a arte que mais deve a Olvídio é o cinema: há dois milênios atrás ele já escrevia em termos de montagem cinematográfica e seus versos estão repletos de efeitos especiais: seres humanos se metamorfoseiam em animais, minerais, fontes, rios ou astros celestes… as pedras lançadas para trás por Deucalião e Pirra se transformam em seres humanos, aliás nossos antepassados, segundo esta mitologia…

Duas coisas se destacam em Ovídio: a primeira é a capacidade de amarrar todas as estórias tão diversas em um único relato… é claro que às vezes ele acrescenta um tema intermediário para juntar dois relatos diversos, mas faz parte… a segunda é a poesia de Ovídio, que ao contrário de tantos poetas antigos que se tornaram datados, ainda permanence atual.

Vejam este fragmento do livro III, onde o marinheiro Acetes conta ao rei Penteu a fábula do jovem Baco que embriagado é descoberto por marinheiros tirrenos que oferecem uma carona ao mesmo, pretendendo na verdade vendê-lo como escravo… porém no barco, Baco desperta e descobrindo o plano transforma o cordame do navio em uma videira e faz surgir temíveis felinos… os marinheiros apavorados se atiram no mar se transformando em peixes, só restando Acetes, o único marinheiro que se opusera ao pérfido plano:

”Então o deus, zombando deles como se apenas agora, por fim, se apercebesse da traição, olha o mar da curva da popa, e, simulando chorar, diz: ´Marinheiros, não é esta costa  que me prometestes! Esta não é a terra que vos pedi! Por que razão mereci um castigo? Que glória é a vossa se enganardes, sendo adultos, uma criança e, sendo muitos, a um sozinho?` Eu já estava a chorar. O ímpio grupo ri-se de minhas lágrimas e bate pressurosamente o mar com os remos. (…) A embarcação deteve-se em alto mar como se estivesse em doca seca. Atônitos, eles persistem em bater os remos, soltam as velas e tentam avançar com recurso a ambos os meios. As heras travam os remos e, com seus retorcidos nós, introduzem furtivamente por todos o lado e matizam as velas com seus pesados cachos. O próprio deus, de fronte cingida de cachos e uvas, brande uma lança coberta de parras. Em seu redor estão deitadas ilusórias imagens de tigres, de linces, e de panteras de corpos ferozes e mosqueados. Os marinheiros saltaram borda fora, fosse a loucura, fosse o medo a impeli-los. E Medom foi o primeiro a quem todo o corpo começou a ficar negro e a curva da coluna a acetuar-se. Lícabas começou a dizer-lhe: Em que estranha coisa está a transformar-te?` E, enquanto fala, alarga-se-lhe a boca, curva-se-lhe o nariz, e a pele se escurece e cobre-se de escamas. Ao pretender puxar em sentido contrário os remos, que resistiam, Líbis vê as mãos encolherem para um tamanho reduzido e a deixarem de ser mãos, podendo considerer-se barbatanas. Um outro, ao pretender erguer os braços para o cordame enredado, já não tinha braços e, arqueando o corpo mutilado, deslizou para a água; a extremidade da cauda tem forma de foice no modo como se curvam os cornos da meia lua. Saltam por todo o lado e levantam uma nuvem de orvalho. Emergem de novo e voltam a submergir no mar. Executam uma espécie de dança, elevando no ar seus corpos folgazões. Aspiram e expelem a água do mar pelas largas narinas. Dos vinte que éramos, pois tantos levava aquele barco, restava só eu.”

Esta bela edição da Editira 34 é bilíngue: latim e português… mesmo não sabendo latim, tentei ler no original só de farra… confesso que não deu… dos quinze livros só li em latim os dois primeiros… 

Além do texto na língua original, a edição tem também um glossário, que é muito útil, pois Ovídio costuma tanto se referir a um deus ora na forma grega, ora na forma romana, quanto não revelar diretamente o nome do personagem preferindo dizer: o filho de fulana ou o neto de sicrano… então, as pessoas que não estão familiarizadas com a correspondência dos nomes dos deuses (o Zeus grego é o mesmo que o Júpiter romano) nem com a árvore geneaógica destes deuses,  precisam recorrer a este glossário. Como sugestão para a próxima edição, uma árvore geneaógica ilustrada das divindades greco-romanas seria muito didática.

Então… o que você está esperando, caro leitor? 

(*) Encerrada por Acrísio, rei de Argos em uma torre de bronze (pois ele ouvira a profecia de que seria assassinado pelo seu neto), Dânae foi fecundade por Zeus através de uma chuva de ouro gerando Perseu.

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O LUGAR – Annie Ernaux – Tradução: Marília Garcia – Editora Fósforo

Somente agora entrei em contato com a escrita da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2022, Annie Ernaux. Neste romance sociológico e autobiográfico a escritora retorna a o mundo de seu pai, um operário filho de camponeses que se torna comerciante abrindo um café em uma pequena cidade da Normandia… é muito interessante, o sujeito consegue uma ascenção social, porém se recusa a ingressar em um mundo mais civilizado… “meu pai nunca entrou em um museu” relembra a escritora… é como alguém que deixa o Egito do trabalho operário e se recusa a entrar na terra prometida do conforto burguês, deixando esta tarefa para a sua filha, tal qual a geração de Moisés… Durante e narrativa percebemos como o mundo da escritora vai se distanciando do mundo de seus pais a medida em que ela vai crescendo e tomando contato com outras realidades e seu pai além de perceber tal fenômeno, parece até se orgulhar de ter propiciado a filha uma vida diferente… fiquem com um pedaço:

“Ao escrever, caminha-se no limite entre reconstruir um modo de vida em geral tratado como inferior e denunciar a condição alienante que o acompanha. Afinal, esta maneira de viver constituía, a própria felicidade, mas era também a barreira humilhante de nossa condição (consciência de que “em casa as coisas não estão estão lá tão bem assim”). Eu gostaria de falar ao mesmo tempo dessa felicidade e de sua condição alienante. Sensação de que fico oscilando de um lado para outro desta contradição.”

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PAPELES FALSOS – Valeria Luiselli – Editora Sextopiso

Na minha opinião Valeria Luiselli é uma das maiores escritoras da atualidade, já li os livros dela editados em Pindorama, todos romances. Na última vez que estive em Montevidéu entrei na livraria Libros de la Arena e encontrei este livro… pensei que fosse inédito, porém descobri era uma edição do primeiro livro dela, um ensaio sobre literatura…

Na verdade não dá para separar a romancista da ensaísta… mesmo em seu ultimo romance ”Arquivo das Crianças Perdidas” há um pósfácio onde ela, explicando as diversas citações existentes no romance, relata que o primeiro dos cantos de Erza Pond é uma referência ao décimo primeiro livro da Odisséia de Homero, além é claro de diversas referências a T. S. Eliot, Joseph Conrad, Jerzy Andrzejewski, Rilke, Jua Rulfo, etc.

Papeles Falsos começa em uma visita ao cemitério San Michele na ilha lindeira a Veneza onde estão enterrados Erza Pound, Joseph Brodsky, Luchino Visconti, Igor Stravinsky e Sergei Diaghilev…depois ela discorre sobre vários assuntos como  a cartografia da Cidade do México, a diferença entre caminhar a pé, de carro ou de bicicleta, livros sobre poesia brasileira (*), a descoberta do vazio e do incerto dentro da palavra (**), a importância dos porteiros dos prédios, a classificação de escritores em relação a um espaço externo (***), até por fim um relato divertido de como ela se tornou uma cidadã de Veneza, retornado ao tema do início…

Quem tem familiaridade com o espanhol pode ler que valea a pena!!! Nas observações abaixo, a tradução dos textos dela é de minha autoria.

 (*) Há uma citação de um trecho de poesia brasileira (escrito em português) que eu pensava que fosse uma citação de algum autor nosso, mas pelo que pesquisei deve ter sido escrito por ela mesmo:

“calçadas que pisei

que me pisaram

como saber no asfalto da memória

o ponto em que começa a fantasia?”

(**) Torquato Neto já dizia que “cada palavra é uma cilada”, Valeria Luiselli afirma:

“cada palavra produz um silêncio mais além da qual não pode haver nenhum som, os nomes são a luva que cobre a prótese, a envoltura de uma ausência.”

(***) “Escritores que inventam cidades e se apossam de épocas inteiras com a empunhadura da pluma e o gume do gênio: a Londres da Chesterton e Johnson, a Paris de Rousseau e Baudelaire, a Dublin de Joyce (…) escritores que constroem estórias como palácios estraordinários ou ilhas desertas que logo habitam, como um personagem a mais de sua trama – talvez por aí andem Sebald, Melville, Conrad e Defoe.” 

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FELISBERTO HERNÁNDEZ – OBRAS COMPLETAS VOL. 3 – TIERRAS DE LA MEMORIA – DIARIO DEL SINVERGUENZA – ÚLTIMAS INVENCIONES – Siglo Ventiuno Editores

Felisbero Hernández acreditava que sua especialidade estava em escrever o que não sabia, que tinha “que buscar feitos que deêm lugar a poesia, ao mistério e que sobrepassem e confundam a explicação”… sua obra é a melhor mostra desta concepção.

Em Pindorama, país de emboabas, temos somente uma publicação deste genial escritor, mas que abarca grande parte de seus melhores escritos: “O Cavalo Perdido e Outras Histórias” editado pela Cosac&Naif.

Além deste livro, temos as obras completas, mas somente na lingua espanhola. Aqui temos o volume 3 de suas obras completas… já havia lido o volume 2, que possui a obra mais significativa… o volume 1 nunca consegui encontrar em minhas andanças pelas livrarias de Buenos Aires e Montevideo…

Neste terceiro volume, temos o conto “O Crocodilo” que foi incluso na  antologia brasileira, que conta a estória de um vendedor de tecidos ambulante que um dia ao entrar em uma residência no interior do Uruguai, enquanto esperava a dona de casa vir (pois e a estava em outro cômodo da casa), só por brincadeira começa a fingir que estava chorando, para entreter o filhinho da dona da casa… resultado: ele conseguiu vender seu produto e passou a adotar esta técnica, tornando-se o maior vendedor da empresa…

Temos outros escritos que não puderam ser inclusos na antologia brasileira, como “Terras da Memória”, relato de uma viagem que Felizberto Hernández fez em sua juventude a Mendonza, onde apresentou um concerto para piano (ele também era músico, tal qual Paul Bowles), e demais textos, onde entre fluxos de consciência errantes, e ponderações psicológias, temos pérolas como “Diário do Sem-vergonha”… leiam um fragmento:

“Ao começar este diário o autor acreditou descobrir, uma noite, que tinha uma enfermidade parecida com aqueles que pensam que uma parte de seu corpo não é mais dele. E depois passou por etapas, nas quais experimentou o seguinte: Todoseu corpo era alheio. Começou a buscar dentro deste corpo – com o qual tido estranhamentos desde muitos anos e havia terminado de chamar-lhe o sem vergonha – seu verdadeiro eu.

O corpo havia pensado e escrevendo em nome de um “eu” que não lhe pertencia e até seu próprio nome parecia ser deste corpo.

Todo este corpo não era, porém, desta outra pessoa: a cabeça pertencia a uma outra terceira. Este corpo e a cabeça tinham estranhos entendimentos e desentendimentos , mas os dois obstruíam a busca do “eu” do autor deste diário”

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ROBERTO CARLOS OUTRA VEZ – VOLUME 1 – 1941-1970 – Paulo Cesar de Araújo – Editora Record

Entre minhas leituras, procuro alternar livros de boa literatura, livros históricos e biografias (ou auto-biografias)… Logo que fiquei sabendo deste livro não quis comprá-lo… estava revoltado com a palhaçada que o Roberto Carlos fez com o autor, no livro “Roberto Carlos em Detalhes”, e além do mais o biografado, apesar do talento, não é uma pessoa divertida, ao contrário de outras biografias (ou auto-biografias) que eu já li, como as de Aracy de Almeida, Ary Barroso, Antônio Maria, Keith Richards, John Huston, Zé do Caixão… nem tem a profundidade de um Winston Churchil, Orson Welles, Glauber Rocha, Torquato Neto, Hélio Oiticica…

 Porém depois de assitir a entrevista do autor no programa “Provocações” da TV Cultura, e já tendo lido outra obra deste autor (*) mudei de idéia, pois apesar do acima exposto, continuo a admirar Roberto Carlos, não toda a sua obra, mas pelo menos até meados dos anos 70, antes dele passar para a fase Cama, Mesa e Banho…

Lendo este livro, passei a entender melhor o fenômeno Roberto Carlos e o porquê ele sobreviveu a Jovem Guarda: ele começou imitando Elvis Presley no conjunto Sputniks (com Tim Maia e Erasmo Carlos), depois passou a imitar João Gilberto (**), tentou entrar na patota dos bossa-novistas mas foi excluído, virou crooner da Boate Plaza, em Copabana cantando boleros e sambas-canção, depois conseguiu uma chance na CBS lançando LP com vários ritmos, até que emplacou no twist e foi convidado a participar do Programa Jovem Guarda na TV Record…  porém ao perceber o declínio do movimento, começou a incorporar elementos da Motown criando suas melhores obras… outra qualidade dele é que ele ouvia e gravava canções de muitos compositores obscuros ou em início de carreira: Tim Maia (Não vou ficar), Antônio Marcos (E não vou deixar você tão só), Luiz Ayrão (Ciúme de você), Getúlio Cortes (Quase fui lhe procurar), José Ari/Pedro Camargo (É tempo de Amar), Edson Ribeiro/Hélio Justo (Ninguém vai tirar você de mim), etc.

Para quem gosta de música popular este livro é um prato cheio… eu mesmo, um apreciador da Jovem Guarda e que achava que tinha um conhecimento razoável da música de Roberto Carlos, tive ao menos três surpresas: 

1)   Sempre achei que “Fiquei Tão Triste” tivesse sido gravada pelo Paulo Sérgio e não pelo Roberto,

2)   A bateria totalmente “quebrada” tocada por Toni Pinheiro em “As Curvas da Estrada de Santos”,

3)   O piano tocado por Dom Salvador em “Jesus Cristo”.

Espero agora o volume 2, para entender como foi o processo que levou Roberto Carlos à fase “Cama, Mesa e Banho”… Mas extrapolando, muito além da obra do Roberto Carlos e abrangendo o periodo de 1930 até hoje, gostaria que algum ensaísta escrevesse um livro explicando o porquê que um país no qual nasceram compositores tão bons, apresente agora uma música tão medíocre (não me refiro a uma pequena parcela dos novos compositores que mantém o nível) mas aos que fazem sucesso… Muitas vezes, ouvindo canções antigas na rádio, quando estou dirigindo, eu me pergunto: Como fomos parar neste lixo atual?… Mas de um povinho que elegeu Bolsonaro, não podemos esperar coisa melhor… infelizmente…

(*) Eu Não Sou Cachorro Não – Paulo Cesar de Araújo – Editora Record

(**) Procurem ouvir “Fora do Tom” (Carlos Imperial) e “João e Maria” (Carlos Imperial) na minha opinião um dos fatores da rejeição do grupo da Bossa Nova à pessoa de Roberto Carlos, ao meu ver, foi o final desta música: “Coitadinho do João/Era uma vez João/Era uma vez João/Era uma vez João/Joãzinho” … parece que ele estava tirando sarro do João Gilberto (uma vez que estava imitando-o descaradamente)… Imagine se o Paulo Sérgio fizesse uma música que terminasse com “Era uma vez Roberto/Robertinho”… Se um dia eu encontrar o Paulo César de Araújo, gostaria de expor esta minha opinião,,,

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PALMEIRAS SELVAGENS – William Faulkner – Tradução: Newton Goldman – Círculo do Livro

Famoso pela frase “entre a dor e o nada, escolherei a dor”, este livro contém duas estórias que são narradas de forma intercalada: “Palmeiras Selvagens” e “O Velho”, que até podem ser lidas independentemente pulando os capítulos, uma da outra… a primeira é sobre um estudante de medicina que conhece uma mulher mais velha, casada com dois filhos, ela foge com ele e vão formar uma casal que vive de formas alternativas em diversos locais, antecipando o movimento hippie… a segunda história é sobre um presidiário que em meio a uma enchente do rio Missisipi, acaba escapando acidentalmente numa canoa, sendo que em determinada hora ele acaba dando carona a uma mulher grávida, porém ele só pensa em deixá-la em um local seguro e retornar a prisão…

Faulkner disse uma vez que publicou estas estórias em um mesmo livro pois ambas eram curtas demais para serem publicadas separadamente… é óbvio que ele estava brincando… ambas dialogam entre si (não vou entrar em detalhes para não adiantar as narrativas).

Para os personagens de Faulkner não existe o livre-arbítrio, parece que seus personagens rumam a um trágico abismo… mesmo com Wilbourne, entre a dor e o nada, ter optado pela dor, a impressão que tenho é que ele não a escolheu… ele sempre for a atraído pela dor, como um prego é atraído por um imã… 

Faulkner apresenta uma escrita aparentemente realista que utiliza uma linguagem rebuscada, mas lendo suas obras com atenção, percebemos que por trás de tudo existe um mundo sem sentido algum, cheio de som e de fúria… cuja história é contada por um idiota, como já dizia Shakespeare…

Um fato curioso é que Glauber Rocha sempre quis filmar este livro… na minha opinião esta é uma das obras literárias mais difíceis de serem transpostas para o cinema, por razões puramente técnicas, imagine filmar uma enchente no Mississipi, uma mina de carvão abandonada em meio a nevascas, entre outras coisas… 

Tentei ler este livro no final dos anos 80 e desisti… agora consegui desfrutar esta obra de Faulkner, escritor do qual só havia lido “O Som e a Fúria”… No cinema só vi “Uma Aventura na Martinica” filme dirigido por Howard Hawks e estrelado por Humphey Bogart e Lauren Bacall, que Faulkner adaptou a partir de um livro de Ernest Hemingway, “Ter e não ter”.

Desejo agora, não só ler seus outros livros, mas também ver a adaptações de suas obras para o cinema, dentre elas “O Mercador de Almas” (1958) dirigido por Martin Ritt e estrelado por Orson Welles, Joane Woodward e Paul Newman… 

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RICARDO III – William Shakespeare – Tradução: Barbara Heliodora –Editora Nova Fronteira

Aos poucos vou lendo a obra do bardo inglês…  e quando tiver lido grande parte dela pretendo ler “Shakespeare: a invenção do humano” de Harold Bloom, livro no qual o critico literário afirma que o comportamento humano atual é derivado da obra de Shakespeare, tese bastante interessante.

Nesta obra, temos a história de Ricardo III, o último rei  da dinastia Platangeneta, que foi derrotado por Henrique VII, o primeiro rei da dinastia Tudor. Henrique VII , pai do lendário Henrique VIII era também avô da Elisabeth I, que encomendou a peça a Shakespeare. Não é a toa que Ricardo III é retratado da pior forma: corcunda, mau caráter e assassino:  com um braço atrofiado e com um caráter também deformado, ele não mede esforços para chegar ao poder. 

Na verdade Ricardo III nunca foi corcunda… (especialistas analisaram eu esqueleto e verificaram que ele tinha uma escoliose avançada) e muito provavelmente a obra de Shakespeare foi baseada nas fake news existentes nas crônicas de Halle,  Holinshed e na biografia suspeita escrita por Thomas More.

Independente da veracidade histórica, Ricardo III  é uma grande peça, mistura tragédia, comédia, e até um pouco de romance (a cantada que Ricardo III dá em Anne Neville, afirmando que matara o seu marido e o seu sogro por ciúmes e propondo um casamento, é uma obra-prima da retórica do mau-caratismo).

Leiam, um grande autor como Shakespeare, sempre irá nos surpeender!!!

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ULYSSES – James Joyce – Editora Penguin /Companhia das Letras – Tradução Caetano W. Galindo 

SIM, EU DIGO SIM – Caetano W. Galindo  – Editora Companhia das Letras 

Neste ano, além do centenário da Semana de Arte Moderna, outro evento na história da arte também completa 100 anos: a publicação de “Ulisses” de James Joyce.

Finalmente terminei minha segunda releitura de Ulisses… ganhei de meu pai em meados dos anos 80 a primeira tradução em português de Antônio Houaiss… tentei ler umas duas vezes, mas não fui adiante… Em 2000 finalmente tomei coragem e consegui ler… cinco anos depois, quando foi publicada a segunda tradução do livro, a cargo da Bernardina da Silveira Pinheiro, eu fiz minha primeira releitura, amparado não só nas notas da tradutora (*) como no livro “Homem Comum Enfim” de Anthony Burguess e no guia das ruas de Dublin (Eyewitness Travel Guides).

Agora finalizei a segunda releitura, a tradução de Caetano W. Galindo, complementando com seu livro explicativo, com releituras a diversos contos de Dublinenses (do mesmo autor), com o site Ulysses Guide https://www.ulyssesguide.com/(que possibilita verificarmos os locais em que são passados o romance), com trechos do livro “James Joyce e Seus Tradutores” – Dirce Waltrick do Amarante – Editora Iluminuras e com o artigo “De Ulysses a Ulisses” de Augusto de Campos publicado no livro “Panaroma do Finnegans Wake” – Editora Perspectiva. 

Um livro é como o mar, você pode nadar na superficie com uma máscara e um snorkel e observer superficiamente, você pode mergulhar com uma roupa de neoprene e um cilindro de oxigênio e observar melhor suas profundidades ou pode usar um escafandro e ir até os abismos marinhos…  é obvio que nem toda a superfície marinha é profunda e em parte dela não precisamos de escafandros, como também na literatura também existem livros nos quais não conseguimos nos aprofundar, porém existem livros que possibilitam diversos níveis de leitura…

Ulisses, a grosso modo, é a narração de um dia cotidiano de um homem comum (Leopold Bloom), sua mulher (Molly Bloom) e um jovem (Stephen Dedalus), mostrando paralelos com um epopéia (no caso a Odisséia), mostrando que no dia-a-dia de um simples cidadão ou cidadã, podem estar imbuídos acontecimentos épicos, que muitas vezes passam despercebidos. Mas este paralelismo entre “Ulisses” e a ”Odisséia” embora exista, não é tão rígido como possa parecer…  existem outros paralelos entre “Ulisses” e outras obras, que nem todos percebem: por exemplo, no capítulo inicial o personagem Stephen Dedalus ao imaginar o fantasma da mãe falecida na torre onde habitava, evoca a aparição do fantasma do rei assassinado que vemos no início de Hamlet…

Na verdade a mágica de “Ulisses” está na linguagem… esta é a meu ver o principal personagem… não só cada um dos dezoito capítulos é escrito em uma linguagem específica, como no episódio “Gado ao Sol” temos um estilo que começa salustiano-tacitiano, passando a um inglês aliterativo e monossilábico, depois a um estilo elizabeteano, depois ao estilo miltoniano até chegar numa mistura de inglês pidning, inglês negro, cockney, irlandês, giria bowery, etc. Este episódio se passa em uma maternidade, quando Bloom resolve visitar uma conhecida que está para dar a luz e encontra Stephen no bar da maternidade pagando bebidas para seus amigos. A evolução da língua inglesa (mostrada nesta diversidade de estilos) é comparada a evolução do feto, do óvulo até o nascimento…

Esta variância de estilos é o grande desafio enfrentado pelos tradutores, além do problema dos neologismos (palavras compostas)… Este é um capítulo a parte. As línguas inglesa e alemã, já possuem palavras compostas como no inglês “typewriter” (tipo+escritor: máquina de escrever) ou no alemão “streichholzschachtel” (risco+madeira+caixa: caixa de fósforos).

 No português não temos normalmente estes neologismos, embora alguns precursores de uma nova linguagem já tenham criado coisas como “olhicerúlea” “criniazul” (Odorico Mendes), “capribarbicornipedesfelpudos” (Filinto Elísio) e “verdevivas” “luz-negrores” (Sousândrade) ,escritores estes já falecidos antes de James Joyce conceber Ulisses. 

Porém para traduzir Ulisses, nossos três heróis (Houaiss, Belarmina e Galindo) tiveram que se virar, criando soluções não só para estas palavras compostas, como para os palíndromos, aliterações, rimas internas e outros recursos literários… soluções estas, muitas vezes geniais, outras vezes deixando um pouco a desejar em face das características das linguas inglesa e portuguesa… mas se compararmos com as traduções francesa, espanhola e italiana, as traduções brasileiras saem ganhando…

Para finalizar, aqui vai a versão de uma das mais belas frases do livro nas três traduções:

 “The heaventree of stars hung with humid nightblue fruit”

“A árvorecéu de estrelas pejada de húmido fruto úmido noitazul.” (António Houaiss)

“A árvorecéu de estrelas pairava com o fruto úmido da noiteazul.” (Bernardina da Silveira Pinheiro)

“A celestárvore de estrelas prenhe de úmido fruto azulnoturno.” (Caetano Galindo)

 (*) A tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro tem um diferencial: em suas notas estão traduzidos os trechos de Ulisses escritos em outras linguas (latim, grego, francês, italiano, alemão, hebraico, húngaro, etc.) Eu mesmo nesta releitura da tradução do Caetano Galindo, muitas vezes consultei a tradução da Belarmina para verificar estas notas. Se você quiser se aventurar nesta difícil empreitada, eu recomendo a tradução da Bernardina da Silveira Pinheiro como a mais apropriada.

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POETA CHILENO – Alajandro Zambra – Companhia das Letras – Tradução: Miguel Del Castillo

Este é um livro sobre a relação entre um padrasto e um enteado, suas reservas, suas cumplicidades, seus afetos seus silêncios…

Este é um livro sobre o mundinho dos escritores de um país sul-americano: suas mesquinharias, suas panelinhas, suas pequenas vaidades…

Este é um livro sobre o desencanto das mulheres com o mundo masculino: seu egoísmo, sua falta de diálogo, seu machismo…

Este é um livro sobre a cidade de Santiago: suas esquinas, suas livrarias, suas praças, seus bares e restaurantes…

Este é um livro sobre as pessoas que não venceram na vida (aliás sobre este conceito absurdo, fica aqui uma observação do cronista Antônio Maria que dizia que “a vida não é um páreo para ter vencedores e mesmo que fosse, todos os corredores chegariam empatados”).

Mas acima de tudo, este é um livro sobre a poesia chilena, afinal um país com dois prêmios Nobel em literatura, ambos poetas, é como um país Bicampeão Mundial em poesia… quem ler não só a estória do livro , mas pelo menos três poemas de cada autor citado, será contemplado com uma porção da produção poética de um país Bicampeão Mundial em poesia… e isto não é pouco…

Além dos contemplados com o Prêmio Nobel, Gabriela Mistral e Pablo Neruda, são citados Miguel Arteche, Gonzalo Rojas, Gonzalo Muñoz, Gonzalo Millán, Carlos Pezoa Véliz, Pablo de Rokha, Oscar Hahn, Claudio Bertoni, Verónica Jiménez, Elvira Hernández, Yanko González Henry Lihn, Raúl Zurita, Vicente Huidobro, etc. 

Também temos citações de outros poetas não chilenos como as americanas Marianne Moore e Emily Dikson, o boliviano Jaime Sáenz, o grego Yorgo Seferis, o peruano Luiz Hernández, o argentino Santiago Llach e até o brasileiro Haroldo de Campos…

Por fim, este livro é também uma homenagem ao escritor chileno Roberto Bolaño… a certa altura a personagem Pru (uma jornalista norte-americana) afirma que os personagens Vicente e Pato parecem personagens de Bolaño… quem já leu “Detetives Selvagens” irá perceber a semelhança com a dupla de personagens Arturo Belano e Ulisses Lima… 

Roberto Bolaño (para mim o maior romancista e contista chileno) também era poeta… Pato achava que Bolaño era um poeta menor… Vicente per sua vez achava-o bom, porém não na categoria de um Henrique Lihn… 

Saiu recentemente em Pindorama o único livro de poemas de Bolaño “A Univeridade Desconhecida”… leiam também este livro e vejam quem tem razão: Pato, Vicente ou nenhum dos dois…

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AS IF THE SEA SHOULD PART AND SHOW A FURTHER SEA

O título foi inspirado em um poema de Emily DIckson… adorei a imagem de um mar rompido mostrando outro mar.

Como se o Mar rompesse
Mostrando um outro Mar ―
E fosse ― um outro ― nesse
Mar ainda pré-formar ―

Mares do Mar ― que invade
As Praias singulares
De outros futuros Mares ―
Nestes ― a Eternidade ―

As if the Sea should part
And show a further Sea ―
And that ― a further ― and the There
But a presumption be ―

Of Periods of Seas ―
Unvisited of Shores ―
Themselves the Verge of Seas to be ―
Eternity ― is Those ―

(Tradução Augusto de Campos)

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